Recordando… Conto de Natal…..

Olhar_Cego_CoraçãoRecordando…

Rafael o menino cego

Aquela era a noite da magia. A noite onde as famílias se recolhiam no aconchego do lar junto à farta chama que se vislumbrava das lareiras. As luzinhas de Natal que piscavam intermitentemente sobre os pinheiros adornados de fitas farfalhudas; bolas cintilantes, sininhos e pais natais de chocolate que vestem prata. Uma estrela que pousa no cume a recordar esse cintilo que se admira no céu. As mesas, algumas delas, decoradas no rigor das cores, no bom gosto das velas, na simplicidade de um arranjo alusivo à época. É Natal. É noite de Natal. Os adultos reunidos no acolhimento da fogueira, despidos dos mantos pesados que protegem o frio da rua, falam naquele modo confraternizador que amolece os corações de quem ouve – a esperança eminente de que o mundo melhore e o Homem amadureça na sua pequenez. A vontade enorme de que a fome morra no seio da fartura que se deseja todos os Natais. Que o mundo possa respirar paz e fraternidade. Que as guerras se possam contar como lendas, histórias que não voltarão a ser reais.
Os doces; sonhos, rabanadas, bolo-rei, arroz doce, coscorões, latejam no íntimo de quem olha, reprimindo, ignorando, a dieta que se quer feita depois. Amanhã. Os presentes escondidos no segredo de um papel muito colorido, enfeitados com fitas douradas, prateadas, repousam junto à elegância do pinheirinho. Junto àquele brilho que encanta os olhos dos mais novos – as crianças.
Era assim que Rafael recordava o Natal de outros tempos. O tempo em que havia uma casa, uma mesa, um pinheiro e uma família – pai, mãe e irmã. O tempo antes de se ver traído pela promessa do regresso que nunca chegou. Uma mãe morta pela força de um cancro fulminante. Um pai assolado e desempregado que se dedicou ao álcool antes de sucumbir não se sabe onde. Uma irmã, que por ser bela e educada, fora adotada por famílias endinheiradas. Sobejava dali o menino cujos olhos só podiam imaginar o que outras bocas lhe contassem ou os dedos tateassem devagar. Nasceu cego. Nunca pode ver a dor estampada no rosto da mãe, os olhos ébrios do pai ou a cor da pele da irmã. Alguém, que não se lembra exatamente quem, lhe tinha falado da sua própria palidez, do vago dos seus olhos esverdeados, dando a ideia de um verdadeiro menino Jesus que até o dia de nascimento teriam em comum. Talvez esse alguém desse pelo nome de fada. Há sempre uma fada que segreda aos cegos no Natal. Há sempre uma fada que aparta e expulsa a solidão, o medo, dos meninos órfãos de tudo.
Era Natal. Noite de Natal e Rafael mantinha-se quieto na mesa junto a outras crianças de histórias semelhantes. Diziam-lhes que ali era o seu lar. A sua casa quando eles não tinham alternativa de mais nada do que acatar com aquela verdade. Ainda que não pudessem os seus olhos ver as cores do dia ou o brilho da noite não se importava, tinha no tato das mãos a magia de um conto, na úbere imaginação a lembrança de uma família que se guarda no amor do peito. Não sabia por mais quanto tempo permaneceria naquele novo lar, mas não se importava – a fada, em segredo, prometeu-lhe uma nova irmã. As fadas não mentem, atrasam-se na hora e chegam tarde aos sonhos, mas não mentem. Rafael acreditou sempre que a irmã voltaria para o buscar. Naquela noite de consoada, só os olhos dele tremeluziam diante de uma menina especial, chegada de novo e sentada ao seu lado.
– Como te chamas?
– Esmeralda.
– Tens nome de pedra preciosa.
– E tu ainda tens os olhos de antes.
– Os olhos de antes?
– Sim, os que a fada me mostrou num sonho.
– E que mais te mostrou a fada?
– Mostrou-me o caminho para reencontrar o meu irmão.
– Mas a minha irmã não se chamava Esmeralda.
– Esmeralda é o nome que as fadas dão às meninas que se perdem na rua à procura dos irmãos.
Esmeralda não era, de facto, a irmã adotada por famílias endinheiradas, era tão só a menina perdida na rua que procurava incessantemente um irmão cego. Ainda assim, quiseram ambos dar-se como irmãos, dar-se como encontrados. Ambos felizes, indiferentes ao abandono, não se importaram com os enganos de sangue, quiseram simplesmente celebrar a nova recordação que o Natal lhes oferecia, aquela em que se descobrem e amam os irmãos alheios como sendo nossos. Aquela que, de um equívoco, pode inventar uma nova família, uma outra magia.

Escrito por: Carla Pais – www.decarlapais.wordpress.com

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Tem um Dia Fantástico. Diverte-te!

About Jorge Duarte da Silva

” Mudar o mundo, ajudando cada um individualmente a mudar a forma como o vê! “

Posted on 2015/12/22, in Motivador Pessoal, Parceria and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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